(Cultura)

Maneki-neko: o significado do gato da sorte

Maneki-neko é o gato que chama sorte. Pata esquerda e direita, cores, a lenda do Gotokuji e o que é tradição ou comércio.

Nicholas Nishimura Atualizado 7 min de leitura

O maneki-neko está em caixa registradora, em prateleira de aeroporto e em altar doméstico, sempre com uma pata no ar. O gesto parece um adeus para quem foi criado noutro código. No Japão é o contrário: é um chamado. Palma para fora, dedos para baixo, pulso mexendo. O gato chama gente para dentro. O resto — moeda, babador, cor, orelha dourada — é variação em cima desse convite.

招き猫

maneki-neko

Gato que convida. Maneki é o convite com a mão. Neko é o gato.

Ele não é um omamori fechado em saquinho, nem um ofuda de santuário, nem um daruma de olho por pintar. É um engimono, objeto de sorte, com duas pátrias que se disputam a origem e uma terceira, a loja, que hoje é onde quase todo mundo o encontra.

O gesto que o Ocidente lê ao contrário

Antes da cor e da pata, convém acertar a mão. Chamar alguém no Japão é um movimento de vir aqui, com a palma voltada para o próprio corpo de quem chama e os dedos dobrando para baixo. Quem filma um gato de pilha e acha que ele está se despedindo inverte o sinal. O comércio inteiro do maneki-neko depende dessa leitura correta. O gato não diz tchau ao dinheiro. Diz entra.

A pata que sobe é quase sempre a esquerda ou a direita, raramente as duas, embora existam gatos de duas patas para quem não quer escolher. Uma explicação muito repetida em lojas de Tóquio afirma que a esquerda, do ponto de vista do gato, atrai clientes e pessoas, e a direita atrai dinheiro e sorte material. Outra explicação, em outras cidades, troca os lados. Há ainda quem diga que a pata mais alta chama de mais longe.

Nenhuma dessas legendas tem um decreto nacional. São modos de a loja organizar a prateleira e de a família justificar o gato que já estava em casa. Comprar o da esquerda “porque a internet garantiu” é seguir um catálogo, não uma lei do folclore. O que o folclore sustenta é o convite. O lado é dialeto.

Duas origens, nenhum cartório

A história mais fotografada é a do Gōtokuji, templo budista da escola Sōtō em Setagaya, Tóquio. Conta-se que um gato do templo chamou, com a pata, um samurai da casa Ii, que se abrigou sob o portão. Um raio caiu no lugar onde ele estaria se tivesse seguido. Agradecido, o senhor favoreceu o templo. O gato, morto depois de uma vida longa, passou a ser honrado ali. Hoje o terreno está cheio de maneki-neko brancos oferecidos por visitantes, fileiras que mais parecem um exército de louça.

A outra história forte é a de Imado, em Asakusa. Uma mulher pobre, sem ter o que vender, teria recebido em sonho o conselho de fazer um gato de cerâmica. O gato vendeu, a casa se reergueu, a olaria de Imado ganhou fama. Há variantes com uma gueira que entra no olho da mulher e um gato que a salva, ou com um gato que simplesmente indica o caminho da prosperidade. Imado e o Gōtokuji não precisam ser fundidos num enredo só. São tradições de lugar. As duas explicam por que o gato de cerâmica e o gato de templo convivem.

Nenhuma das duas é uma ata do século XVII com assinatura. As datas que circulam em blogs — 1600 e poucos, era Edo, um senhor específico — misturam genealogia da casa Ii, que de fato se ligou ao Gōtokuji, com o miolo miraculoso, que é lenda. Dá para dizer as duas coisas na mesma frase. A casa Ii patrocinou o templo. O raio e o gato são o modo como o templo conta esse laço.

Cor, coleira e a moeda

O gato clássico de templo é branco, muitas vezes com detalhes dourados, coleira e um guizo. O guizo lembra o gato de casa rica do período Edo: o som avisava pássaros e donos, e também marcava um animal estimado, não um gato de rua. A coleira, portanto, não é só enfeite. É status de gato que come dentro de casa.

Na pata ou no pescoço aparece uma moeda de ouro, o koban, às vezes com os caracteres de fortuna ou de uma quantia hiperbólica. É desejo de prosperidade dito em voz alta. Não é preço. Não é uma cédula que se troca.

As cores multiplicaram-se no século XX e no comércio de exportação. Branco para o conjunto geral de sorte, dourado para dinheiro, preto para afastar o mal, vermelho para saúde, rosa para relações. Parte disso recicla simbolismo japonês mais antigo. Parte é tabela de loja, útil para vender conjunto de cinco gatos e frágil como “tradição milenar”. O gato tricolor, mike-neko, tem fama própria de sorte por ser menos comum e por lembrar o gato que caça bem, logo o gato que protege o arroz do rato. Essa fama é mais velha do que a tabela rosa e azul.

Quando o objeto é elétrico, com a pata a pilha, o gesto se repete o dia inteiro na vitrine. É publicidade cinética. Funciona porque o olho segue movimento. Não funciona como prova de que o templo recomenda pilha. O Gōtokuji continua cheio de gatos parados, oferecidos e deixados lá. O de pilha volta para casa com o turista.

Onde ele mora de verdade

Três endereços ajudam a não misturar tudo.

No templo, o gato é oferta. Compra-se no local ou traz-se um, deixa-se no recinto, pede-se um laço de prosperidade ou de segurança para a casa. O gato fica. Não é souvenir que se tira da fileira dos outros. O Templo Gōtokuji é o exemplo que a fotografia consagrou. Há outros templos com gatos, menos instagramáveis e igualmente sérios.

Na olaria, o gato é ofício. Tokoname, em Aichi, e as cerâmicas de Imado têm história de produção. Um gato feito por quem ainda entende a forma, o peso e o esmalte não é o mesmo objeto que uma resina de atacado, mesmo que os dois levantem a pata. Isso não humilha a resina. Situa o preço e a expectativa.

Na loja, o gato trabalha. Pequenos comércios japoneses colocam o maneki-neko voltado para a rua, para que o chamado alcance a calçada. O tamanho varia do pingente ao gato de meio metro. Ao lado, muitas vezes, há um daruma. Os dois dividem balcão sem dividir teologia. Um convida. O outro espera um olho pintado.

Fora do Japão, o gato entrou em restaurante, em loja de presente e em desenho animado. O gesto sobrevive mesmo quando ninguém sabe o nome do templo. Sobrevive melhor quando alguém ainda sabe.

O que ele não promete

O maneki-neko não substitui cliente, trabalho ou conta paga. A lenda do samurai que escapa do raio é uma história de atenção: alguém, ou um gato, fez um sinal, e o homem atendeu. A leitura mais seca é quase prática. Quem ignora o chamado passa reto e leva o raio. Quem entra, abriga-se.

Também não é um kami. Não se oferece arroz e saquê a um gato de plástico como se fosse Inari. Se a casa tem um kamidana, o gato não ocupa o centro dele no lugar do ofuda. Pode estar na estante, ao lado, como objeto de sorte da família. A diferença de móvel é uma diferença de categoria.

Gatos de carne e osso não são maneki-neko. A confusão rende piada e, às vezes, abandono de animais comprados por impulso por causa da lenda. A lenda não pede isso. O templo tem estátuas. A casa que quer um gato vivo tem uma responsabilidade que a louça não tem.

Como escolher sem cair na tabela mágica

Se o interesse é o costume, um gato branco de pata móvel ou parada, comprado com atenção à origem, basta. Se a visita inclui Tóquio, o Gōtokuji mostra o que acontece quando milhares de pessoas deixam o mesmo pedido em louça. Se o interesse é só o desenho, a resina também é um desenho, e não precisa fingir que veio de Imado.

A pata pode ser escolhida pelo lado que a própria loja explica, desde que essa explicação não seja repetida depois como lei nacional. A moeda pode estar escrita em kanji de fortuna sem que o dono finja ler um contrato. O guizo pode tilintar. Nenhum desses detalhes obriga a crença. Todos eles ficam mais interessantes quando se sabe que a mão chama, em vez de se despedir.

Nomes, lugares e fontes

O nome 招き猫 descreve o gesto. O Templo Gōtokuji, em Setagaya, conserva a tradição da casa Ii e a fileira de gatos oferecidos. A tradição de Imado, em Asakusa, conserva a versão da olaria e da casa que se reergue. As tabelas de cor e de pata são uso comercial variável, e devem ser apresentadas como tal.

O gato não acena para quem vai embora. Ele chama quem ainda está na calçada. Todo o significado cabe nessa correção de gesto. O resto é coleira, moeda e o tamanho da fé que cada balcão suporta.

Perguntas frequentes

O que significa maneki-neko?

Maneki-neko é o gato que convida. Maneki vem do verbo chamar com a mão, e neko é gato. A pata erguida repete o gesto japonês de chamar, com a palma para fora, não o adeus ocidental.

Pata esquerda ou direita dá mais sorte?

Não há uma regra única no país inteiro. Uma tradição muito repetida diz que a pata esquerda chama pessoas e clientes, e a direita chama dinheiro. Outras casas inverteram ou simplificaram. A pata erguida importa mais do que a lenda da loja.

Qual é a lenda do Gotokuji?

No templo Gōtokuji, em Tóquio, conta-se que um gato chamou um samurai da casa Ii para dentro do portão, e assim o homem escapou de um raio. Agradecido, ele tornou o templo próspero. É uma tradição do lugar, não um documento do século XVII.

Maneki-neko é um amuleto de santuário?

Não no sentido do omamori. É um engimono, um objeto de sorte, com raízes em templos e em olarias. O gato de loja e o gato oferecido no Gōtokuji não têm o mesmo peso, embora compartilhem o gesto.